11 de fev. de 2010

Algumas impressões sobre o trabalho de pesquisa

Há duas semanas passamos para a fase de pesquisa bibliográfica, depois do término das transcrições. Essa fase do trabalho teve algumas surpresas, sobretudo na quantidade de material disponível sobre o Reinado em Minas Gerais e no Brasil. Encontramos volumes interessantes na biblioteca da Funedi/UEMG, que falavam das festas de Santo Antônio do Monte e Itapecerica. Pela internet, pudemos baixar uma série de artigos que tratam do tema.

O mais interessante ao passar da fase de registro da fala para a de leitura é que muita coisa que a gente observava antes acaba sendo confirmada pelos artigos. Por exemplo, um detalhe que a gente até já comentou aqui: a volatilidade das expressões da cultura popular, que se modificam de acordo com as interpretações e vivências de cada um de seus mestres. Uma celebração popular mantida pela oralidade, como o Reinado, acaba mudando em alguns detalhes de uma irmandade para outra. Cada vez que conversamos com um dos reinadeiros, novos significados e histórias iam surgindo, complementando umas às outras. Na literatura pesquisada, a diversidade de explicações sobre a tradição é sempre ressalvada. O termo Reinado, por exemplo, não é adotado em festas de outras cidades; em alguns estados a festa é conhecida como Congado ou Congadas, que aliás são as denominações mais comuns.

Assim também é com o mito fundador da festa, que é o surgimento de Nossa Senhora do Rosário no mar. Segundo contam os reinadeiros, quando a santa foi vista sobre as ondas, os brancos tentaram levá-la para a igreja. Mas, no dia seguinte, a imagem tornou a aparecer no mar. O fato se repetiu até que uma guarda de Moçambique cultuou, com seus tambores, Nossa Senhora, que então não saiu mais da igreja.

O mito explica o papel central da guarda de Moçambique na festa do Reinado. Sem a guarda de Moçambique, alertaram alguns reinadeiros, não tem como criar uma irmandade. A história também tem suas variantes. Dependendo do local, pode-se ouvir que a Santa surgiu na montanha ou no rio, além de outros detalhes que floreiam o conto.

Foi interessante observar o papel central que a oralidade tem em estudos acadêmicos sobre o Reinado. É natural que uma festa mantida pela tradição oral dependa da fala das pessoas para ser compreendida. Assim, mesmo os estudos centrados na pesquisa de registros documentais usaram de fontes orais para complementar o trabalho. E é também engraçado pensar que, mesmo distantes, os depoimentos colhidos pelos pesquisadores parece ter sido tirado das entrevistas que fizemos, tamanhas são as semelhanças do modo de falar.

Mais do que uma celebração religiosa, o Reinado é uma marca da resistência negra perante a dominação cultural do branco. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário era também um local onde os negros se reuníam para reconstituir laços culturais perdidos. E uma coisa que a gente observa ao estudar essas irmandades é a diversidade cultural e étnica que existia entre os escravos.

Somos acostumados à visão europeia de enxergar índios apenas como índios, e africanos apenas como africanos. Isso é engraçado, porque ninguém se refere a italianos, franceses, portugueses e ingleses pelo termo genérico europeu. A África não era um povo único, mas aos olhos dos portugueses, seus habitantes eram apenas mão-de-obra escrava. Talvez essa seja uma visão que a lei 10.639 possa ajudar a mudar.

Conforme vimos nos estudos, é a etnia Banto a que mais empresta significados às festividades do Reinado. Os bantos foram os principais trabalhadores das minas gerais e trouxeram muita coisa de sua cultura nos navios negreiros. Existem mais de 2 mil palavras de origem banto no português que a gente conversa. Há, no entanto, muito mais complexidade ao se procurar os significados das celebrações. Evidente que a gente não pensa em esgotar o assunto, e nem há como. Mas continuamos falando sobre isso nas próximas postagens.

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