18 de dez. de 2009

O projeto Reinado para as Novas Gerações

Desde que iniciamos nossos registros de tradição oral, na cidade de Luminárias (MG), despertou-me a vontade de fazer um trabalho semelhante na cidade onde eu nasci. O ano era 2007, o projeto Memórias Iluminadas estava começando e nos fez pensar no quanto teríamos de trabalho pela frente para seguir na empreitada de valorizar nossa tradição oral.

No ano seguinte, trabalhamos em paralelo nas cidades de Três Corações e Luminárias. Registramos os professores da rede pública de ensino para o Memória da Educação Tricordiana, e nos aventuramos num regime de mutirão, com apoio da Fhemig, para gravar as memórias dos moradores da ex-colônia de hansenianos de Santa Fé, na zona rural de Três Corações.

Vendo que tudo o que registrávamos estava de uma forma ou de outra interligado, a gente conversava sobre a possibilidade de se criar um grande baú de histórias, onde fôssemos coletando entrevistas com idosos e disponibilizando para o público. Começava a surgir a ideia do Museu da Oralidade.

Aos poucos, o propósito do Museu foi amadurecendo. Mais do que um simples repositório de histórias de vida, o Museu teria que ser uma grande ferramenta de preservação, valorização e difusão da tradição oral, pois é dela que estávamos falando desde o início. Não queríamos simplesmente transcrever falas de pessoas, mas sim compreender o universo que permite às tradições se manterem vivas e fortalecer os laços das novas gerações com suas ancestralidades. Esse fortalecimento, num país de imensa tradição oral, como o Brasil, ganha força com as novas tecnologias digitais, que facilitam o armazenamento, o tratamento e a comunicação dos acervos que registramos.

Fomos tomados pelo espírito do Cinema Novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos; uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Convergimos com os ideais de Paulo Freire, de que antes de tudo é preciso saber ler o mundo. Misturamos tudo isso à nossa vontade de seguir adiante, pegamos nosso pen-drive de R$ 30 que grava 10 horas de áudio e fomos coletando informação com a melhor metodologia de pesquisa já formulada pelo ser humano: a curiosidade.

Assim chegamos a Divinópolis, e em 2008 começamos as conversas com as pessoas da comunidade. Chegamos ao Reinado, uma tradição de séculos, resultado de sincretismos do culto aos santos católicos com a cultura africana, sobretudo da etnia Bantu. Conversamos com reinadeiros de irmandades de alguns bairros, que relataram a dificuldade em conseguir dialogar com os mais novos e explicá-los a origem e a complexidade das danças, guardas, ternos, reis e rainhas que formam o Reinado.




Surgiu assim a ideia do projeto Reinado para as Novas Gerações, que vocês podem acompanhar aqui neste blog. O projeto foi aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e conta com o patrocínio da Etiquetadora Amaral (Etiam). O objetivo é o registro das memórias das irmandades pela fala de seus capitães e integrantes, e a partir delas, escreveremos um livro infantil, voltado ao público das escolas da cidade.


Convivendo com o pessoal das irmandades, reparamos que a tradição do Reinado revela o papel de Divinópolis como cidade pólo. Boa parte dos reinadeiros tem origem nas comunidades vizinhas de Cajuru, Perdigão, São Sebastião do Oeste, Araújos. Hoje, são moradores dos bairros e da zona rural. Ao todo, são 17 irmandades no município, movidas pela fé em Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e pelo trabalho incessante de seus líderes comunitários.

Para nós, é um prazer recebê-los neste espaço. Compartilhem conosco a experiência de mergulhar nesta tradição. Sejam bem-vindos e façam bom proveito.

9 de dez. de 2009

Vicente Ferreira de Andrade - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito do bairro Vila Romana


A conversa sobre a irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito do bairro Vila Romana foi conduzida pelo mestre reinadeiro Vicente Ferreira de Andrade. Ele tem 64 anos, nasceu na cidade vizinha de Conceição do Pará. A entrevista aconteceu na capela que a comunidade está construindo. Ainda sem reboco, portas e janelas, a igreja fica num local agradável, cercado de mata e com vista para alguns bairros próximos.


Seu Vicente passou a infância na roça. Ele conta que brincava de bola de gude e jogava futebol, mas ressalta que, naquele tempo, toda criança tinha que trabalhar. Como o destino não lhe reservou outra sorte, ele ajudava o pai nas pequenas lavouras de arroz, café, milho, cana e feijão. O pai era carreiro, tinha um carro puxado por seis bois. Acordava todos os dias às cinco da manhã para carregar a produção do sítio e dos vizinhos. Aos oito anos, Vicente teve o primeiro contato com o Reinado, apresentado pelo pai, que comandava um terno de Catupé.

- O terno do Catupé faz muito movimento, é mais para dançar. Hoje tem muita diversão, então as crianças dispersam. Mas antigamente, não tinha, então a gente queria sempre ver o Reinado.

Ele lembra que veio estudar no seminário dos franciscanos em Divinópolis. Mesmo que escondido, ele sempre dava um jeito de 'escapar' do colégio para dançar o Reinado nos cortejos do pai. Ele lembra que, nos tempos da proibição, as guardas paravam de tocar quando passavam em frente à igreja.

- O Reinado era proibido porque era da raça negra, e durante muito tempo o negro não podia entrar na igreja. Hoje são todos iguais, em toda parte. As missas congas são muito bonitas.

Vicente explica que o Moçambique usa roupas mais simples, porque representa os escravos. As fardas são brancas e acompanham um lenço na cabeça, um rosário no pescoço e as gungas nas pernas, que antigamente eram feitas de cabaça. Outros instrumentos são as caixas, que, pela tradição, devem ser feitas de madeira e couro. Só o Moçambique leva a determinação de guarda, pois é dele a responsabilidade pela guarda das coroas. Os demais (Congo, Vilão, Catupé) são ternos.

Como capitão-mór da guarda de Moçambique, seu Vicente lembra das responsabilidades que carrega. No dia da festa, é a guarda que precisa conduzir toda a corte para a igreja. Fica responsável pelo levantamento das bandeiras. A primeira é a do aviso, levantada um mês antes. No dias das festividades, são erguidos os mastros das bandeiras dos santos de devoção da comunidade.

- O bastão do capitão-mór é que dá a ordem da guarda. E é o capitão-mór que faz as músicas. O canto do Moçambique é um mistério. Vou te dizer assim, porque na hora que os instrumento toca e na hora da necessidade, as letra cai da cabeça da gente, e depois que passa a gente não lembra mais nada. É o Espírito Santo mesmo que ilumina. Conforme seja o momento, conforme seja o santo, faz aquele verso.

A irmandade do bairro Vila Romana tem duas guardas de Moçambique e um terno de Congo. Ele lembra que já participou de festas de até nove dias seguidos.

- A força, a disposição, tudo isso vem do alto. Tem 57 anos que eu danço Reinado. Por fé mesmo e devoção. Por toda parte, só encontro agradecimento de graças recebidas. Isso aí vai aumentando a nossa fé. Desde criança meu pai sempre falou que Nossa Senhora do Rosário é a mãe, é a nossa mãe. Hoje a gente fica sempre feliz.

Francisco José de Souza - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro São José



A visita à casa de Francisco José de Souza, no alto do bairro São José, é brindada com uma bela vista do centro da cidade. Chegamos pela manhã e fomos recebidos por toda a família. Pela varanda, já não se tem dúvidas de que se tratam de pessoas com grande fé no Reinado. São várias figuras de santos nas paredes e um altar dedicado a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Seu Francisco nasceu na cidade vizinha de São Sebastião do Oeste, há 73 anos. Ele conta que a primeira vez que viu o Reinado foi na comunidade de Serra Negra, zona rural do município. Seu pai era meeiro de terras com um fazendeiro local. Como toda tradicional família do interior de Minas, plantava milho, arroz, feijão e mandioca; a maior parte para sustento próprio. Foi um tio de Francisco que lhe apresentou a tradição do Congado.

No dia da entrevista, mesmo acometido por uma gripe, seu Francisco não se desanimou ao explicar a origem das tradições que representa no bairro.

- Nossa Senhora do Rosário apareceu e, quando levavam ela para a Igreja, ela voltava. Foi o Reinado que levou Nossa Senhora do Rosário para a Igreja. O terno do Moçambique levou ela e ela não saiu mais.

No decorrer da conversa, fomos vendo o quanto toda a família de Francisco é envolvida com a tradição. Filhos, netos, esposa, genro; todos o ajudavam a responder as perguntas que fazíamos. Francisco tem um filho e um genro capitães de guarda.  A irmandade do bairro São José tem dois ternos, Moçambique e Catupé. Na hora das festas, guardas de irmandades vizinhas são convidadas para completar o cortejo.

- O Moçambique leva os reis. O Catupé complementa a procissão e ajuda a puxar os reis, serve mais de enfeite da festa.

Seu Francisco conta que as fardas, as coroas, os enfeites e os preparativos para as festas são de responsabilidade dos reis e rainhas. Normalmente, há oito casais, em homenagem a São Benedito, Santa Efigênia, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Mercês e Princesa Izabel. Há ainda  Rei Congo e Rainha Conga e Rei e Rainha de Promessa.

Ele conta que as guardas levam às imagens às casas dos reis. Eles se incorporam à procissão, que vai até a igreja do bairro, onde é celebrada um missa. Cada guarda leva, no cortejo, a bandeira. Em seguida, vêm os capitães, que organizam a caminhada e fazem os versos. Caixa, pandeiro, reco-reco e tamborim são os instrumentos da guarda do Catupé, que tem 52 'brincadores'. O Moçambique do São José conta com quatro caixas, quatro pantangonas e várias gungas e tem 20 'brincadores'. Seu Francisco comenta que a maioria das guardas do São José é formada de mulheres e crianças. As festividades acontecem em setembro.

- Esse ano nossa festa foi adiada por causa da gripe suína; lembrou.

O capitão regente comentou também dos tempos de proibição do Reinado pela igreja católica oficial.

- Antigamente, quem mexia com Reinado era considerado macumbeiro. A gente ficou 24 anos sem Reinado dentro das igrejas. Hoje, os meninos sabem mais do que a gente. Às vezes, os mais velhos estão mais cansados. Agora, as crianças, não. Bateu o tamborim, elas 'tão lá dançando.


A fala de seu Francisco demonstrou mais uma vez a força das manifestações culturais mantidas pela oralidade. Algumas das histórias que ele conta não são exatamente as mesmas que ouvimos de pessoas de outras irmandades, o que é comum em se tratando da tradição oral. A forma como os conhecimentos são passados, de geração em geração, dinamizam a cultura, que ganha novas formas conforme a criatividade e a interpretação de cada um.

- A família de reinadeiro começa no berço, na barriga da mãe; finalizou seu Francisco.

Zilá das Dores Policarpo e Oswaldo João Pacheco - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto São Vicente



A capela da irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito do bairro Alto São Vicente talvez seja a mais bonita de todas. Localizada próxima a um cruzeiro, tem vista para quase toda a cidade. Quem nos recebeu para contar a história da irmandade foram Zilá das Dores Policarpo de Oliveira e Oswaldo João Pacheco, ambos muito receptivos e demontrando empolgação com a conversa.

Começamos pela história de seu Oswaldo, que, logo de cara, preferiu não economizar:

- Meu pai era capitão. Na roça, não tinha diversão. A tradição que o pai tinha, a gente tinha que acompanhar. Ele morreu com 115 anos.



Os pais de seu Oswaldo se chamavam João Pacheco e Modestina Rosa Jesus. Ele conta que tinha uma avó escrava de nome Izabel.

- Eu lembro que ela era toda enfeitada, usava brinco e colar de ouro.

Como toda família antiga, a de seu Oswaldo não era das menores. Ele teve mais de 20 irmãos, nascidos dos quatro casamentos do pai. A tradição de reinadeiro veio dos avós. Ele nos relatou um pouco do que sabe sobre a tradição.

- O terno de Congo é o mestre. O Moçambique é a cabeça. É o mais exigido. É o que leva os santos, puxa a coroa, a princesa, a rainha... Congo e Moçambique é mais simples, mais calmo, tanto que é mais idoso que acompanha. O Moçambique é devagar. Isso veio da antiguidade. Eles contavam que Nossa Senhora do Rosário apareceu no meio do mar. Eles levaram ela para a Igreja, mas de noite ela voltou pro mar. Pediram pros escravos de Moçambique trazer Nossa Senhora, e ela não voltou mais pro mar. Foi a simplicidade, a humildade, a crença do Moçambique que convenceu Nossa Senhora. Por isso que é mais simples.

Para seu Oswaldo, o brilho dos ternos de Congo e Moçambique está no canto. Os capitães cantam sempre de frente para a imagem de Nossa Senhora do Rosário e tiram a cantoria na hora. Ele explica que os ternos do Vilão e do Catupé são enfeites da festa. As roupas são mais coloridas, com muitas fitas e espelhos.

- Antigamente, Vilão com Catupé tinha rivalidade. Cada um queria ser mais bonito que o outro. A gente não tem leitura, isso é o que os antigos contam.

Para homenagear São Benedito, as quitandeiras do bairro preparam doces e pães, que são oferecidos ao santo nas festividades. De acordo com seu Oswaldo, trata-se de uma referência ao fato de São Benedito ter sido um ex-escravo que tornou-se cozinheiro num convento de Franciscanos.


- Teve um congresso de cardeais que precisava fazer muita comida, e São Benedito sumiu. Tava quase na hora de servir e ele nem tinha começado a fazer as comidas. Foram procurar São Benedito e encontraram ele ajoelhado, rezando. Ele voltou com toda calma, bem devagar, se fechou na cozinha. Ficaram espiando ele pela fechadura da porta e viram que os anjos estavam ajudando ele a fazer a comida.

Na irmandade do Alto São Vicente, a festa conta com os ternos de Catupé, Vilão e Marinheiro, além dos tradicionais Congo e Moçambique. Segundo Oswaldo, o Marinheiro é tradição herdada da história de Nossa Senhora do Rosário, que foi encontrada no mar. As roupas são brancas e azuis. Trinta dias antes das festividades, é erguida a bandeira do aviso. A festa dura três dias.

Dona Zilá comentou das dificuldades que a irmandade enfrentou para construir a atual capela. Houve época em que os padres não aceitavam receber os cortejos e as festas tinham que acontecer de fora das igrejas. A conclusão da obra foi possível com a mobilização da comunidade e com a ajuda de políticos, que deram materiais de contrução e cederam o terreno.

- Uma irmandade é uma irmandade, tem que prestar serviço para ela. Toda a vida foi só a gente e Deus, disse dona Zilá.

Perguntamos sobre a participação das gerações mais novas. Seu Oswaldo respondeu fazendo referência à própria família.

- Minha bisneta de quatro meses já está na guarda. Eles vão crescendo com a gente. Com 10 anos, já quer bater os instrumentos. Do jeito que eu fui criado na guarda, eu também 'tô ensinando.

3 de nov. de 2009

Djalma Assis de Oliveira, seu Nego



Nesta última sexta-feira, nos encontramos com Djalma Assis de Oliveira, mais conhecido como Seu Nego. Nascido na zona rural de Carmo do Cajuru, cidade onde ainda reside, ele fabrica nos fundos de casa as caixas que ecoam o som da Folia de Reis e do Reinado na região. Com 77 anos, o artesão conta, com simplicidade típica do mineiro do interior, que aprendeu o ofício ainda criança.

- Aprendi sozinho, com ninguém, comigo mesmo.



Nego lembra que, quando criança, havia na roça onde morava um senhor conhecido por João Quintero, um capitão de guarda de Reinado. Naquela época, o toque do instrumento atiçou a curiosidade de Seu Nego. O problema é que as crianças não podiam bater as caixas.

- Menino não pode por a mão na caixa porque a caixa é benta, dizia seu Quintero.

Seu Nego, então, resolveu que iria começar a fabricar sua própria caixa. Começou com a madeira do Pequi, abundante na época. A primeira levou três meses para ficar pronta. Ele demorou porque, sem prática alguma, quebrava as madeiras sempre que começava a moldar os arcos. O processo era diferente naquele tempo. O artesão vazava uma tora maciça e formava uma caixa com uma única peça. Forrava as aberturas com couro de boi que ganhava de amigos. Atualmente, o modo de fazer se alterou.

- A madeira de pequi acabou, e agora eles não deixam mais fazer com ela.



Na oficina que mantém em casa, seu Nego agora usa ripas de madeira de pinho. Fixa os pedaços com cola de serragem e mantém ao sol por alguns dias, presos a uma armação de ferro. Ele, então, corta duas tiras grandes de madeira óleo vermelho e vai envergando até formar o contorno da caixa, parte que ele considera a mais difícil.

- Eu já tentei ensinar dezesseis pessoas a fazer a caixa. Só duas mulheres que conseguiram fazer.

Os arcos ficam amarrados à caixa durante um dia, para tomar forma. Nesse tempo, o artesão deixa o couro de boi, que compra de fazendeiros da cidade, de molho na água, para ficar mais maleável. No dia seguinte, ele retira temporariamente o arco, que estava se moldando à caixa, para colocar o couro. O acabamento é feito com o cipó murundu e tinta azul.

- O que faz a toada boa é a caixa bem feita e couro de gado novo. Couro de gado holandês nem precisa pôr!

As caixas de Seu Nego são muito conhecidas na região. Ele vende para cidades vizinhas, como São Sebastião do Oeste, Bom Despacho e São Gonçalo do Pará. Boa parte das caixas do Reinado divinopolitano são produzidas por ele. Há também compradores de outros estados, como São Paulo. Sem perder a modéstia, seu Nego lembra que chegou até a exportar algumas para a França.

As caixas produzidas por Seu Nego tem sempre as cores azul e branco (típicas do Reinado) e são entalhadas com uma pequena cruz na lateral. Elas custam em média R$ 130.

- No começo o pessoal falava que eu 'tava mexendo com 'imbondo'. Hoje, quando eles veem o tanto que eu 'tô trabalhando, o povo fala que se soubesse que ia dar dinheiro, aprendia também.


20 de jan. de 2009

Encontro com representantes do Reinado, em Divinópolis



Nesta última sexta-feira (16), estivemos reunidos com representantes do Reinado de Divinópolis, cidade do Centro-Oeste de Minas, para elaborarmos um projeto que aborde a memória desta importante manifestação cultural. As conversas foram agendadas pela funcionária da Secretaria Municipal de Cultura (SEMC) Lenir Castro, uma das principais entusiastas da cultura popular.

Originado da interação entre a cultura dos escravos africanos e a religião católica, o Reinado foi proibido durante anos pela Igreja. A despeito da proibição, que perdurou até a década de 1970, em Divinópolis, a manifestação se manteve viva. Atualmente, são 17 irmandades ativas na comunidade, algumas delas na zona rural. Uma vez por ano, é celebrada a Missa Conga, em homenagem aos reinadeiros, basicamente devotos de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Cada irmandade realiza ainda a sua festa, em louvor aos santos do Reinado. Gilberto Gil e Milton Nascimento são alguns exemplos de pessoas que foram coroados reis congos pelas irmandades locais.


Primeiro encontro - Capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no bairro Espírito Santo.


Lenir nos acompanhou ao nosso primeiro encontro, agendado para a Capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no bairro Espírito Santo. Quem nos aguardava era Maria de Lourdes Teixeira, a "Lourdinha do Reinado", uma das mais fervorosas guardiãs da tradição. Vestida a caráter para a conversa, Lourdinha começou nos contando a origem da fé de seu pai, Vicente Teixeira, em Nossa Senhora do Rosário.

Seu Vicente foi picado por uma cobra urutu, enquanto trabalhava no meio do mato. Veio para a cidade certo de que teria que amputar a perna, tamanha era gravidade do ferimento. Porém, um raizeiro conhecido como Seu Nato tratou de seu Vicente com plantas, e o paciente prometeu a Nossa Senhora do Rosário que, se ficasse curado, dedicaria a vida em prol do Reinado.




Não deu outra. Seu Vicente ficou curado e, a partir daí, surgiu uma impressionante história de devoção. Com o tempo, começou a participar da Festa de Reinado de Carmo do Cajuru. Nessa época, ele já levava Lourdinha para assistir às festividades, pois até então não se permitia a participação das mulheres. Aos nove anos, Lourdinha foi "fantasiada" de menino pelo pai para poder acompanhar o cortejo.

Tempos depois, Vicente se mudou para Divinópolis, onde comprou o terreno para a construção da igreja da Irmandade. "Antes de começar a fazer o alicerce, ele sonhou que construiria uma igreja de sete cantos. Ele começou a construir a igreja que ele sonhou. Quando estava lá em cima da laje, ele sofreu um infarto e morreu. Isso foi há 28 anos", recorda Lourdinha, emocionada. "Meu pai foi uma pessoa muito importante para mim. Ele cumpriu a promessa e morreu trabalhando para Nossa Senhora do Rosário", acrescentou a reinadeira.

Lourdinha emendou lembrando do terço que seu pai ganhou do padre Libério, o frei milagroso nascido na cidade vizinha de Leandro Ferreira. Seu Vicente passou anos rezando para os outros, atendendo pedidos de vizinhos, amigos, parentes e até desconhecidos que ficavam sabendo da sua fé. Em Divinópolis, fundou a guarda do Moçambique Velho, que, na tradição, é responsável por proteger o Reinado.

A reinadeira explica a origem do toque das caixas da guarda de Moçambique. "Os escravos tocavam a caixa para esconder o choro das crianças que nasciam na senzala, por que, se os patrões ouvissem, jogavam as crianças para os porcos comerem", relatou. Daí nasceu a cadência das batidas de Moçambique, a principal guarda do Reinado, segundo Lourdinha.

A guarda de Moçambique é responsável por todo o ritual de fé que envolve as festas de Nossa Senhora do Rosário. Além dela, formam as irmandades os ternos, que são responsáveis por compor e enfeitar. "São a composição do reino", explica Lourdinha. São exemplos o Terno do Vilão, dos Marinheiros, do Catopé, do Penacho. O canto da guarda de Moçambique é mais lento, pois reflete o sofrimento dos negros. Os demais são mais alegres, festivos, pois significam uma homenagem a Nossa Senhora do Rosário.

Para encerrar, Lourdinha brincou dizendo que, às vezes, é mal vista por ser extremamente exigente na hora de respeitar a tradição. "Tem gente erguendo mastro até em cano de PVC. Esta não é a nossa tradição. Reinado é chão, madeira e bandeira. É uma criação de Deus com a fé do homem. Meu sonho é que o Reinado tenha permanência e que a tradição de fé tenha significado para os mais novos", finalizou.


Segundo Encontro - Réplica da Capela de Nossa Senhora do Rosário, ao lado do Mercado Municipal


Nosso segundo encontro com representantes do Reinado aconteceu em frente à réplica da capela original erguida no século XIX em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. A edificação original foi destruída por volta de 1950 para dar espaço ao Mercado Municipal (foto). A réplica ficou espremida entre o mercado e a delegacia de Polícia Civil.




Nos encontramos com dois representantes da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro Vila Romana: Vicente Ferreira Andrade e Antônio Sebastião de Souza. Os dois são cunhados e herdaram a tradição dos pais, que nasceram na cidade vizinha de Perdigão. "Meu pai toda vida foi reinadeiro", disse seu Antônio. "O meu também, ele foi capitão da guarda de Moçambique", completou seu Vicente.

Seu Vicente comenta que, de certa forma, muitas irmandades estão permitindo que a tradição se perca, pois costumam misturar as funções da Guarda de Moçambique com as dos ternos. Porém, ele lembra que, nas últimas décadas, aconteceram mudanças na visão da sociedade em relação aos reinadeiros. "Antigamente, era só o povo mais velho que saía no Reinado. Hoje, tem muita criança. Lá em casa tem criança de quatro anos que gosta do Reinado", disse.

Eles lembraram que, antigamente, o Reinado era totalmente rejeitado pela igreja católica, que não reconhecia a tradição como parte da religião. Atualmente, a realização das missas congas representam a abertura que os católicos deram aos reinadeiros. "Hoje a gente considera o Frei Leonardo como um rei congo", disse seu Antônio, em referência ao frei que comanda a já tradicional celebração. "Antes, todo mundo misturava reinado com macumba, achava que era a mesma coisa", recordou.







"A minha vontade é que os mais novos continuem com a tradição", comentou seu Vicente. Ao final da conversa, apareceu Guilherme, um jovem capitão da guarda de Moçambique. Muito religioso, ele comentou que desde os sete anos dança o reinado, como forma de mostrar sua fé em Nossa Senhora do Rosário.

O conhecimento registrado neste dia de descobertas servirá de base para a elaboração de um projeto que, como percebe-se, dará muito pano pra manga. É esperar para ver.