18 de dez. de 2009

O projeto Reinado para as Novas Gerações

Desde que iniciamos nossos registros de tradição oral, na cidade de Luminárias (MG), despertou-me a vontade de fazer um trabalho semelhante na cidade onde eu nasci. O ano era 2007, o projeto Memórias Iluminadas estava começando e nos fez pensar no quanto teríamos de trabalho pela frente para seguir na empreitada de valorizar nossa tradição oral.

No ano seguinte, trabalhamos em paralelo nas cidades de Três Corações e Luminárias. Registramos os professores da rede pública de ensino para o Memória da Educação Tricordiana, e nos aventuramos num regime de mutirão, com apoio da Fhemig, para gravar as memórias dos moradores da ex-colônia de hansenianos de Santa Fé, na zona rural de Três Corações.

Vendo que tudo o que registrávamos estava de uma forma ou de outra interligado, a gente conversava sobre a possibilidade de se criar um grande baú de histórias, onde fôssemos coletando entrevistas com idosos e disponibilizando para o público. Começava a surgir a ideia do Museu da Oralidade.

Aos poucos, o propósito do Museu foi amadurecendo. Mais do que um simples repositório de histórias de vida, o Museu teria que ser uma grande ferramenta de preservação, valorização e difusão da tradição oral, pois é dela que estávamos falando desde o início. Não queríamos simplesmente transcrever falas de pessoas, mas sim compreender o universo que permite às tradições se manterem vivas e fortalecer os laços das novas gerações com suas ancestralidades. Esse fortalecimento, num país de imensa tradição oral, como o Brasil, ganha força com as novas tecnologias digitais, que facilitam o armazenamento, o tratamento e a comunicação dos acervos que registramos.

Fomos tomados pelo espírito do Cinema Novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos; uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Convergimos com os ideais de Paulo Freire, de que antes de tudo é preciso saber ler o mundo. Misturamos tudo isso à nossa vontade de seguir adiante, pegamos nosso pen-drive de R$ 30 que grava 10 horas de áudio e fomos coletando informação com a melhor metodologia de pesquisa já formulada pelo ser humano: a curiosidade.

Assim chegamos a Divinópolis, e em 2008 começamos as conversas com as pessoas da comunidade. Chegamos ao Reinado, uma tradição de séculos, resultado de sincretismos do culto aos santos católicos com a cultura africana, sobretudo da etnia Bantu. Conversamos com reinadeiros de irmandades de alguns bairros, que relataram a dificuldade em conseguir dialogar com os mais novos e explicá-los a origem e a complexidade das danças, guardas, ternos, reis e rainhas que formam o Reinado.




Surgiu assim a ideia do projeto Reinado para as Novas Gerações, que vocês podem acompanhar aqui neste blog. O projeto foi aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura e conta com o patrocínio da Etiquetadora Amaral (Etiam). O objetivo é o registro das memórias das irmandades pela fala de seus capitães e integrantes, e a partir delas, escreveremos um livro infantil, voltado ao público das escolas da cidade.


Convivendo com o pessoal das irmandades, reparamos que a tradição do Reinado revela o papel de Divinópolis como cidade pólo. Boa parte dos reinadeiros tem origem nas comunidades vizinhas de Cajuru, Perdigão, São Sebastião do Oeste, Araújos. Hoje, são moradores dos bairros e da zona rural. Ao todo, são 17 irmandades no município, movidas pela fé em Nossa Senhora do Rosário e São Benedito e pelo trabalho incessante de seus líderes comunitários.

Para nós, é um prazer recebê-los neste espaço. Compartilhem conosco a experiência de mergulhar nesta tradição. Sejam bem-vindos e façam bom proveito.

9 de dez. de 2009

Vicente Ferreira de Andrade - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito do bairro Vila Romana


A conversa sobre a irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito do bairro Vila Romana foi conduzida pelo mestre reinadeiro Vicente Ferreira de Andrade. Ele tem 64 anos, nasceu na cidade vizinha de Conceição do Pará. A entrevista aconteceu na capela que a comunidade está construindo. Ainda sem reboco, portas e janelas, a igreja fica num local agradável, cercado de mata e com vista para alguns bairros próximos.


Seu Vicente passou a infância na roça. Ele conta que brincava de bola de gude e jogava futebol, mas ressalta que, naquele tempo, toda criança tinha que trabalhar. Como o destino não lhe reservou outra sorte, ele ajudava o pai nas pequenas lavouras de arroz, café, milho, cana e feijão. O pai era carreiro, tinha um carro puxado por seis bois. Acordava todos os dias às cinco da manhã para carregar a produção do sítio e dos vizinhos. Aos oito anos, Vicente teve o primeiro contato com o Reinado, apresentado pelo pai, que comandava um terno de Catupé.

- O terno do Catupé faz muito movimento, é mais para dançar. Hoje tem muita diversão, então as crianças dispersam. Mas antigamente, não tinha, então a gente queria sempre ver o Reinado.

Ele lembra que veio estudar no seminário dos franciscanos em Divinópolis. Mesmo que escondido, ele sempre dava um jeito de 'escapar' do colégio para dançar o Reinado nos cortejos do pai. Ele lembra que, nos tempos da proibição, as guardas paravam de tocar quando passavam em frente à igreja.

- O Reinado era proibido porque era da raça negra, e durante muito tempo o negro não podia entrar na igreja. Hoje são todos iguais, em toda parte. As missas congas são muito bonitas.

Vicente explica que o Moçambique usa roupas mais simples, porque representa os escravos. As fardas são brancas e acompanham um lenço na cabeça, um rosário no pescoço e as gungas nas pernas, que antigamente eram feitas de cabaça. Outros instrumentos são as caixas, que, pela tradição, devem ser feitas de madeira e couro. Só o Moçambique leva a determinação de guarda, pois é dele a responsabilidade pela guarda das coroas. Os demais (Congo, Vilão, Catupé) são ternos.

Como capitão-mór da guarda de Moçambique, seu Vicente lembra das responsabilidades que carrega. No dia da festa, é a guarda que precisa conduzir toda a corte para a igreja. Fica responsável pelo levantamento das bandeiras. A primeira é a do aviso, levantada um mês antes. No dias das festividades, são erguidos os mastros das bandeiras dos santos de devoção da comunidade.

- O bastão do capitão-mór é que dá a ordem da guarda. E é o capitão-mór que faz as músicas. O canto do Moçambique é um mistério. Vou te dizer assim, porque na hora que os instrumento toca e na hora da necessidade, as letra cai da cabeça da gente, e depois que passa a gente não lembra mais nada. É o Espírito Santo mesmo que ilumina. Conforme seja o momento, conforme seja o santo, faz aquele verso.

A irmandade do bairro Vila Romana tem duas guardas de Moçambique e um terno de Congo. Ele lembra que já participou de festas de até nove dias seguidos.

- A força, a disposição, tudo isso vem do alto. Tem 57 anos que eu danço Reinado. Por fé mesmo e devoção. Por toda parte, só encontro agradecimento de graças recebidas. Isso aí vai aumentando a nossa fé. Desde criança meu pai sempre falou que Nossa Senhora do Rosário é a mãe, é a nossa mãe. Hoje a gente fica sempre feliz.

Francisco José de Souza - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro São José



A visita à casa de Francisco José de Souza, no alto do bairro São José, é brindada com uma bela vista do centro da cidade. Chegamos pela manhã e fomos recebidos por toda a família. Pela varanda, já não se tem dúvidas de que se tratam de pessoas com grande fé no Reinado. São várias figuras de santos nas paredes e um altar dedicado a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Seu Francisco nasceu na cidade vizinha de São Sebastião do Oeste, há 73 anos. Ele conta que a primeira vez que viu o Reinado foi na comunidade de Serra Negra, zona rural do município. Seu pai era meeiro de terras com um fazendeiro local. Como toda tradicional família do interior de Minas, plantava milho, arroz, feijão e mandioca; a maior parte para sustento próprio. Foi um tio de Francisco que lhe apresentou a tradição do Congado.

No dia da entrevista, mesmo acometido por uma gripe, seu Francisco não se desanimou ao explicar a origem das tradições que representa no bairro.

- Nossa Senhora do Rosário apareceu e, quando levavam ela para a Igreja, ela voltava. Foi o Reinado que levou Nossa Senhora do Rosário para a Igreja. O terno do Moçambique levou ela e ela não saiu mais.

No decorrer da conversa, fomos vendo o quanto toda a família de Francisco é envolvida com a tradição. Filhos, netos, esposa, genro; todos o ajudavam a responder as perguntas que fazíamos. Francisco tem um filho e um genro capitães de guarda.  A irmandade do bairro São José tem dois ternos, Moçambique e Catupé. Na hora das festas, guardas de irmandades vizinhas são convidadas para completar o cortejo.

- O Moçambique leva os reis. O Catupé complementa a procissão e ajuda a puxar os reis, serve mais de enfeite da festa.

Seu Francisco conta que as fardas, as coroas, os enfeites e os preparativos para as festas são de responsabilidade dos reis e rainhas. Normalmente, há oito casais, em homenagem a São Benedito, Santa Efigênia, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora das Mercês e Princesa Izabel. Há ainda  Rei Congo e Rainha Conga e Rei e Rainha de Promessa.

Ele conta que as guardas levam às imagens às casas dos reis. Eles se incorporam à procissão, que vai até a igreja do bairro, onde é celebrada um missa. Cada guarda leva, no cortejo, a bandeira. Em seguida, vêm os capitães, que organizam a caminhada e fazem os versos. Caixa, pandeiro, reco-reco e tamborim são os instrumentos da guarda do Catupé, que tem 52 'brincadores'. O Moçambique do São José conta com quatro caixas, quatro pantangonas e várias gungas e tem 20 'brincadores'. Seu Francisco comenta que a maioria das guardas do São José é formada de mulheres e crianças. As festividades acontecem em setembro.

- Esse ano nossa festa foi adiada por causa da gripe suína; lembrou.

O capitão regente comentou também dos tempos de proibição do Reinado pela igreja católica oficial.

- Antigamente, quem mexia com Reinado era considerado macumbeiro. A gente ficou 24 anos sem Reinado dentro das igrejas. Hoje, os meninos sabem mais do que a gente. Às vezes, os mais velhos estão mais cansados. Agora, as crianças, não. Bateu o tamborim, elas 'tão lá dançando.


A fala de seu Francisco demonstrou mais uma vez a força das manifestações culturais mantidas pela oralidade. Algumas das histórias que ele conta não são exatamente as mesmas que ouvimos de pessoas de outras irmandades, o que é comum em se tratando da tradição oral. A forma como os conhecimentos são passados, de geração em geração, dinamizam a cultura, que ganha novas formas conforme a criatividade e a interpretação de cada um.

- A família de reinadeiro começa no berço, na barriga da mãe; finalizou seu Francisco.

Zilá das Dores Policarpo e Oswaldo João Pacheco - Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto São Vicente



A capela da irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito do bairro Alto São Vicente talvez seja a mais bonita de todas. Localizada próxima a um cruzeiro, tem vista para quase toda a cidade. Quem nos recebeu para contar a história da irmandade foram Zilá das Dores Policarpo de Oliveira e Oswaldo João Pacheco, ambos muito receptivos e demontrando empolgação com a conversa.

Começamos pela história de seu Oswaldo, que, logo de cara, preferiu não economizar:

- Meu pai era capitão. Na roça, não tinha diversão. A tradição que o pai tinha, a gente tinha que acompanhar. Ele morreu com 115 anos.



Os pais de seu Oswaldo se chamavam João Pacheco e Modestina Rosa Jesus. Ele conta que tinha uma avó escrava de nome Izabel.

- Eu lembro que ela era toda enfeitada, usava brinco e colar de ouro.

Como toda família antiga, a de seu Oswaldo não era das menores. Ele teve mais de 20 irmãos, nascidos dos quatro casamentos do pai. A tradição de reinadeiro veio dos avós. Ele nos relatou um pouco do que sabe sobre a tradição.

- O terno de Congo é o mestre. O Moçambique é a cabeça. É o mais exigido. É o que leva os santos, puxa a coroa, a princesa, a rainha... Congo e Moçambique é mais simples, mais calmo, tanto que é mais idoso que acompanha. O Moçambique é devagar. Isso veio da antiguidade. Eles contavam que Nossa Senhora do Rosário apareceu no meio do mar. Eles levaram ela para a Igreja, mas de noite ela voltou pro mar. Pediram pros escravos de Moçambique trazer Nossa Senhora, e ela não voltou mais pro mar. Foi a simplicidade, a humildade, a crença do Moçambique que convenceu Nossa Senhora. Por isso que é mais simples.

Para seu Oswaldo, o brilho dos ternos de Congo e Moçambique está no canto. Os capitães cantam sempre de frente para a imagem de Nossa Senhora do Rosário e tiram a cantoria na hora. Ele explica que os ternos do Vilão e do Catupé são enfeites da festa. As roupas são mais coloridas, com muitas fitas e espelhos.

- Antigamente, Vilão com Catupé tinha rivalidade. Cada um queria ser mais bonito que o outro. A gente não tem leitura, isso é o que os antigos contam.

Para homenagear São Benedito, as quitandeiras do bairro preparam doces e pães, que são oferecidos ao santo nas festividades. De acordo com seu Oswaldo, trata-se de uma referência ao fato de São Benedito ter sido um ex-escravo que tornou-se cozinheiro num convento de Franciscanos.


- Teve um congresso de cardeais que precisava fazer muita comida, e São Benedito sumiu. Tava quase na hora de servir e ele nem tinha começado a fazer as comidas. Foram procurar São Benedito e encontraram ele ajoelhado, rezando. Ele voltou com toda calma, bem devagar, se fechou na cozinha. Ficaram espiando ele pela fechadura da porta e viram que os anjos estavam ajudando ele a fazer a comida.

Na irmandade do Alto São Vicente, a festa conta com os ternos de Catupé, Vilão e Marinheiro, além dos tradicionais Congo e Moçambique. Segundo Oswaldo, o Marinheiro é tradição herdada da história de Nossa Senhora do Rosário, que foi encontrada no mar. As roupas são brancas e azuis. Trinta dias antes das festividades, é erguida a bandeira do aviso. A festa dura três dias.

Dona Zilá comentou das dificuldades que a irmandade enfrentou para construir a atual capela. Houve época em que os padres não aceitavam receber os cortejos e as festas tinham que acontecer de fora das igrejas. A conclusão da obra foi possível com a mobilização da comunidade e com a ajuda de políticos, que deram materiais de contrução e cederam o terreno.

- Uma irmandade é uma irmandade, tem que prestar serviço para ela. Toda a vida foi só a gente e Deus, disse dona Zilá.

Perguntamos sobre a participação das gerações mais novas. Seu Oswaldo respondeu fazendo referência à própria família.

- Minha bisneta de quatro meses já está na guarda. Eles vão crescendo com a gente. Com 10 anos, já quer bater os instrumentos. Do jeito que eu fui criado na guarda, eu também 'tô ensinando.